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Ex-pró-reitor da universidade Iguaçu é apontado como “homem do dinheiro” no esquema de corrupção

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Preso há quase três meses em Bangu 8, José Carlos de Melo, apontado pelo Ministério Público como o “homem do dinheiro” no esquema de corrupção dentro do governo do Rio de Janeiro na gestão de Wilson Witzel (PSC), iniciou uma batalha nos bastidores para voltar a ter o controle indireto de uma das maiores instituições privadas de ensino do estado. Empresário, ex-jogador futebol profissional e alvo da Operação Tris In Idem, José Carlos era pró-reitor da Universidade Iguaçu (Unig), com campi em Nova Iguaçu, e em Itaperuna, no Noroeste do Rio. No total, as duas unidades possuem 17 mil alunos distribuídos em 17 cursos. Em jogo na briga, está um faturamento mensal médio de 24 milhões de reais.

Tudo começou em 7 de junho deste ano quando VEJA jogou luz sobre José Carlos de Melo, um personagem até então desconhecido publicamente, mas que sempre circulou e atuou no mundo político. Na reportagem, VEJA revelou sua influência no governo fluminense. A partir daí, a Unig fez uma intervenção no acordo firmado, em 2010, com o Centro de Assistência Profissional e Educacional (Cape), empresa então comandada por José Carlos e contratada para administrar a universidade. Em 31 de agosto, após ficar três dias foragido, ele acabou preso suspeito de chefiar um dos três grupos que disputavam poder e vantagens ilícitas dentro do Palácio Guanabara.

O contrato do Cape com a Unig tem prazo até 1º de setembro de 2022. A parceria se deu depois de uma desavença entre integrantes da família Raunhetti, dona da instituição, que decidiu terceirizar a gestão administrativa e financeira. No entanto, com os escândalos de corrupção no governo envolvendo o nome de José Carlos, herdeiros da Unig iniciaram uma auditoria interna para saber se houve ou não irregularidades na universidade. Nos processos judiciais trabalhista e cível, José Carlos é responsabilizado por ter cometido “graves indícios de atos ilegais”, como “desvios de recursos” e “fraudes” contábeis, além de ter acumulado seis meses de salários atrasados de funcionários mesmo tendo dinheiro em caixa. O rombo, alegam os proprietários da Unig, seria de 100 milhões de reais em dívidas tributárias, trabalhistas e com fornecedores. A ação na esfera cível, que envolve o Cape e os Raunhetti, está em segredo de Justiça.

De dentro da cadeia, segundo apurou VEJA, José Carlos de Melo articulou a troca de membros dos conselhos diretor e fiscal do Cape. Em 23 de setembro, em assembleia-geral extraordinária, ele foi afastado da presidência, mas duas pessoas de sua confiança assumiram a empresa. Em seu lugar, como presidente, ficou Mariano José Adriano Neto. Mariano trabalhava como office boy de José Carlos. Para vice-presidente, o Cape escolheu Adilene Costa, então secretária particular e recepcionista do gabinete do ex-jogador de futebol na Unig. As mudanças estão registradas em ata e VEJA também teve acesso.

Em 30 de novembro, o desembargador Elton Leme, da 17ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio, relator do caso, deu liminar favorável para o Cape retomar o gerenciamento da Unig. Em decisão de 31 páginas, o magistrado argumentou, entre outras coisas, que José Carlos não é mais o presidente do Cape e que não foi demonstrada pela universidade a justa causa para a rescisão do contrato. No último dia 3, professores e alunos fizeram um protesto em frente à Unig, em Nova Iguaçu. Na manifestação, eles alegaram que, durante a administração da empresa, sofreram com atraso no pagamento dos salários e dos benefícios.

A Unig já recorreu da decisão e enviou a seguinte nota oficial:

“O STJ (Supremo Tribunal Federal) determinou a prisão preventiva de José Carlos e a manteve, já por duas vezes, por entender que é indivíduo com alto poder econômico, inclusive com muito acesso a dinheiro em espécie (que ele tirava da universidade), o que evidencia grande risco de continuidade das atividades de corrupção e dos crimes pelos quais está sendo acusado. A volta do Cape, empresa de José Carlos atualmente comandada por seu ex-office boy e outros prepostos, ao caixa da Unig, principalmente nesse momento de fim de ano (rematrícula e acerto da inadimplência dos alunos), proporcionará ao Cape e, consequentemente, a José Carlos acesso a mais de 60 milhões de reais em apenas dois meses, sendo certo que uma considerável parte disso é paga pelos alunos em espécie. Isso é um risco que a universidade, a sociedade e, principalmente, a investigação e o processo no STJ contra a corrupção no governo do estado do Rio não podem correr”.

Procurado na tarde desta segunda-feira, 7, o Cape não retornou contato até o fechamento desta reportagem. Um funcionário atendeu a ligação, às 16h24, e informou que os responsáveis não estavam na empresa para falar sobre o assunto. A defesa de José Carlos, por enquanto, não deu um retorno desde o primeiro contato feito por VEJA às 16h50 desta segunda. O espaço está aberto para qualquer esclarecimento.

Delação premiada

José Carlos figura na delação premiada do ex-secretário estadual de Saúde Edmar Santos. De acordo com Edmar, o empresário agenciava empresas que prestavam serviços à pasta, recebendo dinheiro em troca. Na denúncia à Justiça, o Ministério Público afirma que o ex-jogador entrou no governo do Rio por intermédio do grupo do também empresário Mário Peixoto, preso na Operação Favorito. Peixoto sempre negou irregularidades. A Operação Tris In Idem, braço da Lava Jato, prendeu ainda o presidente nacional do PSC, Everaldo Pereira, pastor da Assembleia de Deus, e outras oito pessoas. Nesta ação, foi determinado o afastamento de Wilson Witzel do cargo. Segundo o MP, José Carlos tinha o diferencial de possuir dinheiro em espécie em suas transações.

A relação de José Carlos com os Raunhetti, porém, é antiga. Depois de ter abandonado os gramados, ele trabalhou no campus da Unig em Itaperuna, no início da década de 1990. Caiu nas graças do ex-deputado federal Fábio Raunheitti (PTB), falecido em 2005 e proprietário da universidade. Passou por várias funções até assumir o comando da instituição naquele município. O então parlamentar foi cassado após o episódio que ficou conhecido como o escândalo dos Anões do Orçamento, em 1993.

Após a morte do patriarca, parentes iniciaram, então, uma guerra pelo espólio. No meio do conflito familiar, José Carlos ficou à frente da instituição por meio do Cape. Ao longo dos anos, a Unig foi alvo de ações judiciais e denúncias de venda de diplomas.

Amigo de bicheiros

Embora o CPF de José Carlos não apareça nas prestações oficiais de contas de candidatos à Justiça Eleitoral, políticos – de todas as correntes ideológicas – iam em romaria rumo à casa dele. As reuniões, regadas a vinho – o ex-pró-reitor é um apreciador da bebida -, ocorreram em sua mansão, no Santa Mônica Jardins, na Barra da Tijuca, Zona Oeste. No luxuoso condomínio, não há imóveis com valor inferior a cinco milhões de reais.

Apaixonado por carros esportivos, o ex-zagueiro do Itaperuna até antes da pandemia marcava seus encontros também no restaurante Fratelli, na Barra da Tijuca. José Carlos raramente frequentava eventos públicos. Não tem perfil nas redes sociais e nunca é fotografado ao lado de autoridades. Para ele, a discrição é a alma do negócio.

A regra só era quebrada quando os pedidos ocorriam de velhos amigos dos tempos do futebol. Na internet, há um vídeo em que José Carlos está presente na festa de aniversário, em 2016, do bicheiro Roberto Sued, o Troca-Letra, ex-presidente do Itaperuna. No evento, estavam presentes o ex-deputado federal Simão Sessim (PP), primo do contraventor Aniz Abraão David, o Anísio da Beija-flor, além do prefeito reeleito de Duque de Caxias, Washington Reis (MDB). Em 2019, novamente ao lado de Roberto Troca-Letra, José Carlos participou de ação social, com uma doação financeira para uma instituição da cidade.

Fonte: Veja
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